A questão da relatividade de nossas vidas nos leva a ter percepções fragmentadas da realidade, tendendo sempre a dividir em partes para compreender o todo. Isso acontece porque ainda não atingimos um estado de evolução espiritual que possibilite ter sentidos mais abrangentes e uma visão menos centrada em nosso Ego e, portanto, pouco expansiva na sua sensibilidade. Por enquanto, a audição, o tato, a visão, o paladar e o olfato são acessos para sentirmos o mundo em suas características diferentes, mas que dificultam uma compreensão holística do universo.
Dia virá em que não sentiremos mais pelos canais dos sentidos que dão acesso dos estímulos exteriores à mente, mas teremos percepções muito mais globais. Essa tendência futura, que aqui delineio, já é vivida por aquelas pessoas que se deixam levar mais pela intuição e menos pelas impressões materiais, tendo, por isso mesmo, capacidade de ver além das aparências, de perceber e compreender aspectos da realidade que ficam oclusos para os demais.
Assim também é com a compreensão do tempo. Na verdade, não existe para o Cosmos a relatividade da marcação de tempo que adotamos na Terra. Os anos divididos em meses, dias, horas, minutos e segundos são uma percepção relativa do tempo, própria das características planetárias, e dizem respeito apenas ao tamanho e à velocidade de rotação da Terra. Fora dela, o tempo corre sem estar compartimentalizado,sem medições; talvez nem corra, nem passe como nós o entendemos, porque toda compreensão depende de referenciais em que elas se baseiem. Se deixarmos de ter o referencial de medição que utilizamos, o que será antes ou depois? O que será o ano que vem ou o que passou?
Tudo será apenas infinito, com possibilidades perceptivas que ainda não podemos compreender. É o que alguns cientistas já vêm nos dizendo quando falam de buracos negros no espaço em que a matéria poderia sair da dimensão em que se encontra, percorrer uma outra dimensão, e voltar a sair instantaneamente em outro buraco negro, como se fosse uma passagem, distante muitos anos luz de onde se encontrava. E eu disse instantaneamente! O que aconteceria com o tempo dessa matéria?
Ainda não sabemos, mas já temos conhecimentos suficientes para a certeza de que o tempo é uma dimensão como altura, largura e profundidade, podendo ser percorrida como uma delas. Provavelmente, é essa diferença de compreensão da vida, e do tempo, que nos leva a supervalorizar fatos que se perderiam na imensidão da eternidade. Como estamos fixados no referencial parcial de nossa realidade, tudo o que nelas acontece ganha proporções muito maiores. Para aquele que somente vê a vida dentro dos limites de tempo entre seu nascimento e sua morte, ela passa a ser o centro de suas preocupações, reforçando uma postura egocêntrica e, conseqüentemente, egoísta, sendo uma das causas de tantos males que afligem nossa humanidade.
Quando se avança em nosso processo evolutivo, alargando os referenciais e expandindo a percepção do Universo, também o tempo ganha novas proporções, aumentando o sentido da eternidade. E, diante da eternidade, o que valem alguns de nossos problemas? Qual o significado de algumas de nossas inquietações? Muito pouco… talvez nenhum. Precisamos deixar de ser tão somente cidadãos da Terra para ganharmos a nossa cidadania cósmica. Somos cidadãos do Universo, de um Universo que tende ao infinito e à eternidade, características que marcam nosso próprio ser.
A fome, a miséria, a violência têm sua causa essencial na compreensão fragmentada da vida, em que, como falamos, nosso egocentrismo fica mais reforçado. Quando pensamos em um novo tempo, pensamos em uma compreensão mais espiritualizada de nós mesmos, mais transcendente, enxergando mais do que corpos físicos que se utilizam de bens materiais para alcançar algum prazer na vida. Pensamos em seres imortais, com histórias anteriores felizesde vidas passadas, com possibilidades que se desdobram na continuidade das que virão, permeando o infinito em si mesmos, na profundidade de que suas mentes são investidas. “Somos deuses” afirmava Jesus. Temos poderes insculpidos em nosso psiquismo que permanecem longe de serem totalmente desvendados. Através deles, nos tornamos cocriadores do Universo, movimentando a matéria para a construção da vida.
Aqueles que avançam nessa compreensão, libertam-se pouco a pouco das amarras de suas limitações, das preocupações comezinhas que fazem da vida de muitos um inferno que acontece aqui mesmo. Tornam-se felizes. Não felizes por que algo de bom aconteceu, ou porque seus problemas foram resolvidos para depois reencontrá-los mais à frente. Tornam-se felizes para sempre, porque a felicidade passa a ser patrimônio dessa alma.
Quando pensamos em um novo tempo, queremos fazer votos de uma compreensão diferente da realidade em que nossas vidas se inserem. Fazer votos de uma compreensão diferente de nossas próprias existências.
Um novo tempo que não comece no ano que se inicia, mas que comece dentro de cada um de nós. Um tempo em que seremos capazes de ver nossos irmãos sem medos, sem apegos, sem maldades. Onde cada um vive e deixa seu semelhante viver, livre, mas paradoxalmente intimamente reunidos no holismo de suas existências.

João Carvalho Neto
Um tempo assim, onde todos possamos ser felizes, todos possamos evoluir para alcançar a plenitude da vida, a imortalidade, a vivência do bem e do amor… enfim a paz.
Autor: João Carvalho Neto
Psicanalista, autor dos livros “Psicanálise da alma” e “Casos de um divã transpessoal”
www.joaocarvalho.com.br


